O JULGAMENTO DO RETIRANTE
Estou nesse tribunal
Mas veio a seca doutô
Para pagar o que eu fiz O fragelo do
nordeste
Hoje sou um criminoso Não
existe nada igual
Assim a justiça diz
É mais pior que a peste
Mas eu vou dizer Seu moço Distrói tudo na frente
Naqueles tempos saudoso Mata
mato,bicho e gente
Eu era muito feliz Num fica nada que
preste
Nasci em um pé de serra Quando chega a seca
moço
Lá pra bandas do sertão Seca
rio açude e nascente
Meu rancho tinha de tudo Os bicho
morre de sede
Plantava mio e feijão Naquele sol incremente
O açude nunca secava O
pouco da água que resta
A terra tudo nos dava É
a do suor da testa
De fartura e de montão E a do choro da gente
De manhã nós acordava E foi
com o coração partido
Com o canto dos passarinho Que abandonei minha terra
Tinha galo de campina
Deixei pra trás pesaroso
Curió e viuvinho Meu rancho do pé
da serra
O canto do azulão Vendi o meu cabedal
Parecia uma oração
E vim para a capital
Cheia de amor e carinho Para
enfrentar outra guerra
Eu acordava cedinho
Passamo um ano na rua
E ia pro meu roçado
Catando papel e latinha
Com o meu cão perdigueiro Ajuntamo um dinheirinho
Correndo de lado a lado E compremo uma casinha
Não havia naquele sertão E da enxada de roceiro
Farejador que nem
trovão Passei para a de
pedreiro
Assim ele era chamado E a mulher, foi trabaiá nas cozinha
A minha mulher ficava E como ela era bonita
Em casa com os meus fio Chamou
logo a atenção
Cozinhando a janta e o almoço De um cabra
depravado
E olhando a roça de mio Que era
o seu patrão
Dava comida as galinha E esse infeliz
doutô
Cuidava das três vaquinha A Rosinha
desgraçou
E também de seis nuvio Sem dó
e sem compaixão
Pela noitinha eu vortava E ela
desesperada e agredida
Com muita fome e cansado Na sua
honra e na dor
A janta tava na mesa Passou a corda no pescoço
Café iame e guisado
E assim se suicidou
Eu abraçava a Rosinha
Deixou uma carta dizendo
Ela era a prenda minha Porque
estava fazendo
E sorrindo ela dizia Tamanho ato de
horror
Rezemo a Ave Maria
Pra nós ser abençoado
Naquele mesmo instante É a industria da seca
Eu perdi todo o conceito
É a vil exploração
Procurei aquele infame Do
político desonesto
E dei três tiro no peito
Que não merece perdão
Quando vi ele morrendo Que faz essa pobre gente
Fui logo me arrependendo Viver com indigente
Mas o mal já tava feito Envergonhando a
nação
Está
aqui o resultado
Disse
mostrando o papel
Que segurava tão firme
E agora quem vai cuidar Mas parecendo um troféu
Dos meus fio Seu doutô
Pediu silencio aos presentes
Eu estou desesperado E impávido e imponente
É tamanha a minha dor
Assim falou para o réu
Seu juiz! Se compadeça
Da minha infeliz fraqueza
Mim ajude Nosso Senhor! Senhor João das
candeias!
Este júri foi
coerente
Também peço compaixão
Vou ler o veredicto:
Aos senhores jurado Os jurados aqui presentes
Peço clemência a vosmicês Chegaram a um
resultado
Pelo o crime que eu sou julgado Não o julgaram
culpado
Mas antes de me julgar Estais livre! És
inocente
Se ponham no meu lugar
Que eu aceito o resultado
Os jurados se retiram
Para uma a sala ao lado
Depois voltaram e sentaram
E um deles emocionado
E entregou um papel
Com a sentença do réu
Ao nobre magistrado
Antes de proferir a sentença
Disse o juiz comovido:
Esta vitima é o resultado
De um país dividido
anemia mental e diarréia mental
A miséria e a exploração
Que se alastra no sertão
Neste país corrompido
Jose Wellington figueiroa
melo....................................19/01/2012
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